
A semana foi de fortes emoções e reconfigurações profundas para o mercado global e nacional. O grande destaque fica por conta do "tarifaço" confirmado pelos EUA sobre produtos brasileiros, que promete redesenhar as prioridades da nossa pauta exportadora a partir dos próximos dias. Para complicar o cenário internacional, o fim do cessar-fogo entre Washington e o Irã voltou a incendiar o Estreito de Ormuz, colocando o preço do petróleo e o custo do frete marítimo global sob forte pressão.
No front interno, a correria no Congresso garantiu a aprovação da MP do Frete após paralisações em Santos. Enquanto isso, a Receita Federal aperta o cerco na fiscalização de preços de transferência e compras internacionais e o Brasil lidera um marco histórico rumo à integração do céu sul-americano.

O Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) confirmou nesta quarta-feira (15) a aplicação de uma tarifa adicional de 25% sobre uma extensa lista de produtos brasileiros, com entrada em vigor prevista para 22 de julho. A decisão encerra uma investigação de cerca de um ano, aberta com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, mecanismo que permite ao governo americano apurar e retaliar práticas comerciais consideradas desleais.

Segundo o USTR, a investigação identificou sete áreas em que políticas brasileiras "oneram ou restringem" o comércio dos EUA. O governo brasileiro rebateu ponto a ponto essas alegações, em documento assinado pelo chanceler Mauro Vieira. Sobre o Pix, argumentou que o sistema é uma infraestrutura pública aberta a empresas de qualquer origem, citando a atuação de companhias como Google Pay e Visa no país. Sobre as decisões judiciais envolvendo redes sociais, defendeu que elas seguem a legislação brasileira e se aplicam igualmente a empresas nacionais e estrangeiras. Em nota oficial, o Planalto classificou a decisão como um "marco lastimável" na relação entre os dois países e anunciou que vai acionar os instrumentos da Lei de Reciprocidade Econômica, além de retomar o tema no mecanismo de solução de controvérsias da Organização Mundial do Comércio (OMC).
Apesar da abrangência da medida, itens como petróleo, café, carne bovina, aeronaves, celulose, laranja e suco de laranja ficaram isentos, mais de 1,6 mil códigos tarifários ao todo. A lista de produtos taxados inclui etanol, máquinas agrícolas, vestuário, calçados, papel, aço e açúcar orgânico. A permanência da carne bovina na lista de isenções chama atenção especialmente por ser um dos produtos mais exportados pelo Brasil aos EUA, mesmo em meio a investigações abertas pelo governo americano sobre concentração de mercado em frigoríficos que operam nos dois países.
Em paralelo, os EUA avaliam uma sobretaxa adicional de 12,5% para 60 economias, entre elas o Brasil, sob a justificativa de falhas no combate ao trabalho forçado. Caso as duas medidas sejam aplicadas de forma cumulativa, a tarifa total sobre parte das exportações brasileiras pode chegar a 37,5%. Segundo dados do Global Trade Alert, compilados pelo St. Gallen Endowment, se a tarifa de 25% for mantida, o Brasil passaria da 13ª para a 2ª posição entre os países mais tarifados pelos EUA, atrás apenas da China — com uma tarifa média efetiva subindo de 11,73% para 14,9%.
O governo americano sinalizou que a tarifa pode ser revista caso o Brasil altere as práticas questionadas, mas o Itamaraty já classificou os principais pontos — Pix, etanol e regulação de plataformas — como não negociáveis. Produtos que já estiverem embarcados antes de 22 de julho poderão ingressar nos EUA até 29 de julho sem a sobretaxa. A partir daí, o desfecho da disputa deve depender tanto da continuidade das negociações bilaterais quanto da resposta formal do Brasil via Lei de Reciprocidade e OMC. Enquanto o Ministério da Fazenda projeta impacto macroeconômico reduzido, citando a resiliência das exportações e a diversificação de mercados, entidades setoriais traçam um cenário de alerta: a Amcham estima que a medida alcance US$ 11 bilhões em exportações, e a CNI e Fiesp criticam a condução da diplomacia, prevendo perda de competitividade. Em Santa Catarina, o quadro é crítico: estudo da FIESC aponta que 54,5% da pauta exportadora do estado será afetada pelas novas alíquotas. O capítulo deve se estender ao longo do segundo semestre, sob forte pressão industrial.

Horas depois de classificar como encerrado o cessar-fogo fechado com o Irã em junho, os Estados Unidos retomaram os bombardeios contra o território iraniano durante a cúpula da Otan em Ancara. Segundo o Comando Central dos EUA (Centcom), a ofensiva teve como objetivo "enfraquecer ainda mais a capacidade do Irã de ameaçar a liberdade de navegação no Estreito de Ormuz". Ao longo da semana, mais de 80 alvos iranianos foram atingidos, entre sistemas de defesa aérea, radares e embarcações da Guarda Revolucionária. O Irã confirmou a morte de ao menos 30 civis e sete militares nos ataques recentes.
Em resposta, a Guarda Revolucionária Islâmica do Irã afirmou que o Estreito de Ormuz seguirá fechado "até o fim dos males dos Estados Unidos" e ameaçou fechar outros corredores de exportação que beneficiem os EUA e seus aliados. Analistas ouvidos pela Reuters apontam que o Irã pode acionar os aliados houthis, no Iêmen, para fechar também o Estreito de Bab-el-Mandeb, rota que liga o Mar Vermelho ao Golfo de Áden — um movimento que, segundo autoridades houthis, poderia levar o petróleo a US$ 200 o barril. Por Ormuz passa hoje cerca de um quinto de todo o petróleo e gás comercializado no mundo.
Com o memorando de entendimento firmado em junho classificado por especialistas como "completamente morto", analistas descrevem o conflito como uma guerra de desgaste sem data para terminar — o que deve manter tanto o preço do petróleo quanto o custo do frete marítimo sob pressão nas próximas semanas, com reflexo direto sobre a inflação e os custos de importação no Brasil.

O Senado aprovou, na terça-feira (14), a Medida Provisória 1.343/2026, que altera as regras do piso mínimo do frete rodoviário, um dia antes do prazo final para que a proposta não perdesse validade. A votação ocorreu após dois dias de paralisação de caminhoneiros autônomos no Porto de Santos (SP), organizada pelo Sindicam-Santos para pressionar o Senado a votar o texto.
O texto mantém a obrigatoriedade de um piso mínimo para o frete, mas retira do Congresso a atribuição de fixar valores — o Senado excluiu, por considerar inconstitucional, o piso salarial de R$ 5 mil mensais que havia sido incluído na Câmara dos Deputados. A MP endurece as punições para empresas que descumprirem a tabela da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), com multas de até R$ 1 milhão, suspensão e cancelamento de registro em casos de reincidência. O texto também prevê anistia a multas aplicadas a caminhoneiros por manifestações em 2022, ponto que o líder do governo no Congresso já sinalizou que o presidente Lula deve vetar.
Representantes de transportadoras criticam a forma como a MP foi construída. Para Danilo Guedes, CEO da ABC Cargas, o texto incorporou pontos sem relação direta com a pauta original dos autônomos — caso do piso salarial de R$ 5 mil para motoristas empregados e da obrigatoriedade de pagamento do frete em até 30 dias — e foi decidido sem a participação de sindicatos patronais e transportadoras. Segundo o tributarista Felipe Azevedo Maia, o efeito mais relevante deve aparecer em 2027, quando a fiscalização mais rígida do piso mínimo deve elevar o valor médio dos fretes justamente no momento em que termina a desoneração do diesel — hoje uma renúncia fiscal de cerca de R$ 20 bilhões — e começa a transição da Reforma Tributária, com a entrada da CBS. Maia chama esse cruzamento de fatores de "tempestade tributária em 2027". O agronegócio deve estar entre os setores mais expostos, já que mais de 70% da produção agrícola é transportada por rodovias.
Com a paralisação encerrada e a MP a caminho da sanção presidencial, o próximo capítulo da discussão se desloca do Legislativo para o efeito prático sobre custos: a combinação entre fiscalização mais rígida do piso, fim da desoneração do diesel e Reforma Tributária deve ser o fator determinante para o preço do frete rodoviário a partir de 2027.

A Receita Federal deve iniciar nos próximos meses as primeiras fiscalizações do novo regime de preços de transferência, em vigor desde a Lei nº 14.596/2023. Os primeiros alvos devem ser operações com commodities — que respondem por cerca de 60% das exportações brasileiras, como minério de ferro, petróleo, açúcar, café, celulose e grãos — e subsidiárias brasileiras de multinacionais que registram prejuízo recorrente enquanto as controladoras no exterior concentram a rentabilidade do grupo.
A fiscalização será reforçada pelo Registro de Transações com Commodities (RTC), documento que passa a ser exigido mensalmente das empresas enquadradas nas novas regras. A Receita também deve olhar com atenção para as chamadas "distribuidoras de risco limitado" — modelo em que a subsidiária brasileira atua como braço comercial e logístico enquanto os riscos financeiros ficam concentrados na matriz no exterior — e para transações envolvendo ativos intangíveis, como tecnologia e propriedade intelectual, área ainda pouco regulamentada no país.
No mesmo campo de atuação do Fisco sobre o comércio exterior, o coordenador da Coordenação Operacional Aduaneira da Receita Federal, Fabricio Betto, defendeu, em audiência pública na Câmara dos Deputados, que o programa Remessa Conforme aumentou a transparência sobre as compras internacionais que chegam ao país. Segundo ele, antes de 2023, o modelo tradicional de remessa postal permitia o registro de apenas uma parte das encomendas, criando o que classificou como um "buraco negro" de informações. Com o imposto de importação e as multas do programa, a arrecadação somou R$ 4,7 bilhões em 2025 e já chega a R$ 2,5 bilhões no acumulado até junho de 2026. Uma segunda versão do Remessa Conforme está prevista para janeiro de 2027, com fluxo direto de dados entre plataformas e Receita, sem intermediários, e a possibilidade, ainda em estudo, de adoção do split payment para compras internacionais.
Os dois movimentos, fiscalização de preços de transferência e reforço do Remessa Conforme, indicam uma mesma direção: a Receita Federal amplia o alcance de suas ferramentas de rastreamento sobre operações internacionais, tanto do lado das grandes exportadoras quanto das compras de consumidores individuais, em um momento em que o comércio exterior brasileiro já enfrenta pressão externa por tarifas e frete.

A armadora francesa CMA CGM consolidou-se como a companhia de navegação de maior crescimento relativo no primeiro semestre de 2026. Segundo dados da consultoria Alphaliner, o grupo expandiu sua frota em 235.500 TEUs (+5,7%), superando o ritmo de expansão da líder global MSC no período. Com uma capacidade operacional próxima de 4,4 milhões de TEUs e uma robusta carteira de pedidos (1,8 milhão de TEUs), a companhia francesa não esconde a ambição de ultrapassar a Maersk e ocupar a segunda posição no ranking mundial até o final de 2027. O movimento reflete uma estratégia agressiva de renovação, focada em navios movidos a GNL e metanol, visando otimizar a competitividade nas rotas principais.

O Brasil assinou, junto com Argentina, Chile e Paraguai, o Memorando de Entendimento sobre o Acordo de Liberalização Aérea Sul-Americana (Alas), em Assunção, na terça-feira (14). O documento estabelece as regras para a criação do Céu Único Sul-Americano — um mercado aéreo regional com maior abertura à prestação de serviços, seguindo modelos já adotados na União Europeia, na África e na Oceania. Um grupo de trabalho, formado por autoridades aeronáuticas dos países participantes, terá até 12 meses para elaborar propostas de implementação gradual. O Uruguai informou que deve aderir ao memorando posteriormente.
No mesmo dia, o governo federal assinou com os três países um segundo acordo, que permite que companhias aéreas operem voos entre dois países estrangeiros sem que a rota tenha origem ou destino em seu país de registro — na prática, uma companhia aérea brasileira poderá operar, por exemplo, um voo entre Buenos Aires e Lima sem passar pelo Brasil. A portaria que regulamenta a medida já foi publicada no Diário Oficial da União. Segundo o ministro de Portos e Aeroportos, Tomé Franca, a intenção é ampliar o acordo para o Chile, o Uruguai e outros países da região.
A iniciativa integra a estratégia do Ministério de Portos e Aeroportos para abrir o mercado brasileiro a companhias estrangeiras e aumentar a concorrência no setor. Entre as empresas que o governo espera atrair estão as chilenas JetSMART e Sky Airline, do modelo de baixo custo. A proposta final do Céu Único Sul-Americano está em construção e deve ser apresentada em setembro, quando o governo pretende medir o interesse dos demais países da região.
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